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Metodologias ativas e trabalho por projetos em ambientes virtuais

Metodologias ativas e trabalho por projetos em ambientes virtuais

Marina Almeida
15/07/2020
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As metodologias ativas não são novidade na história da educação, mas ainda é difícil para a escola tradicional colocar o aluno no centro do processo de aprendizagem. Integrar essa metodologia às tecnologias digitais é outro desafio, que fica ainda mais evidente em tempos de pandemia e aulas à distância. Buscando auxiliar o professor neste momento, o 2º webinar do prêmio Respostas Para o Amanhã discutiu caminhos para o uso de metodologias ativas e o trabalho por projetos no ensino remoto.

Transmitido no YouTube do Prêmio no dia 26/06, o evento contou com a participação de Lilian Bacich – doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano (USP) e coordenadora da pós-graduação em metodologias ativas no Instituto Singularidades – e Débora Garofalo, especialista em Língua Portuguesa (Unicamp) e gestora de Tecnologias do Centro de Mídias da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo. 

As mediadoras do debate foram Isabel Costa, gerente de Cidadania Corporativa da Samsung, e Beatriz Cortese, gerente de Tecnologias Educacionais do Cenpec. O webinar faz parte de uma série de debates sobre tecnologia e educação e o próximo será realizado no dia 24/07, com transmissão no Youtube e participação de alunas ganhadoras de outras edições do prêmio.

“É preciso desenhar experiências, em que o aluno seja protagonista e se envolva realmente na construção do conhecimento, não só resolvendo uma tarefa ou fazendo algo que o professor pediu”, explica Lilian sobre essas metodologias. Ela ainda fala sobre a orientação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) de que a aprendizagem, nas diferentes etapas da Educação Básica, seja ativa. “É preciso entender que esse processo só acontece quando o aluno se relaciona com os objetos de aprendizagem”, diz. 


Componentes curriculares

“A BNCC aponta ainda competências gerais que devem ser trabalhadas com os alunos, como o pensamento científico e criativo”, conta Lilian Bacich (foto ao lado). Mas como desenvolver essas duas habilidades num mesmo projeto? A abordagem STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática) pode ser o caminho, unindo diferentes campos na busca por uma solução para um problema real. “Esse conceito tem evoluído e algumas autoras trazem a importância de colocar também a Arte, no sentido amplo das humanidades e do design, transformando a sigla em STEAM e integrando essas diversas áreas”, conta. 

Lilian lembra que essa abordagem pode ser utilizada em diferentes metodologias, como a aprendizagem por projetos. “O STEM pode ajudar o aluno a identificar problemas que merecem um olhar mais aprofundado e, a partir deles, desenhar etapas de investigação que culminem com uma proposta de solução para um desafio real. Até chegar a essa resposta, os estudantes vão desenvolver uma série de competências, como define a BNCC”.


Robótica com sucata

Numa escola da periferia de São Paulo (SP), um projeto de robótica com sucata integrou diversas áreas de conhecimento ao mesmo tempo que trouxe uma solução para um problema dos alunos de Débora Garofalo (foto ao lado). “A escola se localizava entre quatro grandes favelas conhecidas pelo tráfico de drogas e pela violência, mas na conversa com os alunos surgiram outros pontos, como a questão do lixo, que mudou a rota do projeto. Em dias de chuva, o lixo na rua impedia os estudantes de virem para a aula e trazia doenças como leptospirose e dengue. Tínhamos duas saídas: lamentar pelo que não podíamos fazer ou trabalhar, através do lixo, com o que eles precisavam aprender.” 

Débora ressalta a importância de ouvir os alunos e estar aberto a desenvolver um projeto que faça sentido para eles e para sua comunidade, mobilizando-os e dando sentido ao que é estudado. “Fazíamos o recolhimento dos materiais, lavagem e separação do que ia ser usado em aula – o que não era aproveitado foi revendido para parceiros. Com exercícios de pensamento científico e criativo, buscamos criar protótipos com diversas funcionalidades, para levar à comunidade soluções de problemas como energia irregular”, conta. O trabalho ainda incluiu aulas públicas de sensibilização da comunidade sobre lixo e sustentabilidade e uma feira para compartilhar conhecimentos sobre o tema e os protótipos feitos a partir do lixo.

Entre os resultados obtidos, a professora lista a retirada de mais de uma tonelada de lixo das ruas em 3,5 anos, a contribuição do projeto para a redução da evasão escolar, para o combate ao trabalho infantil na região e para o aumento do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica). “Sem falar no ganho socioemocional dos alunos. Esse trabalho ajudou-os a pensar em projetos de vida e a ver que poderiam ser autores de sua história, entendendo que o lugar onde nasceram não define o que eles podem ser na vida”, diz. O projeto também se tornou uma política pública para ciência, tecnologia e inovação na rede, com verba destinada em lei às escolas municipais. (Ao lado: projeto Robótica com sucata, promovendo a sustentabilidade. Foto: SME/Prefeitura de São Paulo)

Os resultados do trabalho foram reconhecido internacionalmente: Débora foi ganhou prêmios como o Professores do Brasil 2018, Aprendizagem Criativa do MIT (Massachusetts Institute of Technology) 2019 e foi finalista do Global Teacher Prize em 2019, sendo considerada uma das 10 melhores professoras do mundo.


Novos papéis para o/a docente

Débora conta que nesse processo viu seu papel como professora mudar: “Percebi que tinha a oportunidade de aprender junto com os estudantes. E também de ser honesta e poder dizer que não sabia alguma coisa de programação, por exemplo. Nosso papel é realmente o de mediar o conhecimento”. 

Num depoimento em vídeo, o professor Juciano Teixeira, da Escola Ronaldo Caminha Barbosa, de Cascavel (CE), falou sobre seu trabalho com metodologias ativas e a mudança na sua prática docente. O projeto que ele desenvolveu com seus alunos em 2019 foi um dos vencedores do prêmio Respostas Para o Amanhã. Apesar disso, Juciano conta que no início resistia a esse formato de trabalho. “Na escola, percebi a mobilização dos alunos pelos projetos. Percebi que ajudavam na prática da sala de aula, no rendimento escolar e, principalmente, traziam mudanças para eles como seres humanos ao terem acesso a outras realidades”, diz. O professor conta que entendeu a importância de colocar os alunos no centro desse processo. “Hoje vejo também o quanto é importante o trabalho científico, porque muda vidas e nossa realidade”.

Débora lembra que as metodologias ativas podem ser abordadas de diferentes formas em sala de aula, como na aprendizagem por projetos, por resolução de problemas ou no formato sala de aula invertida, que consiste em antecipar fatos para os estudantes e, em aula, sanar as dúvidas e explorar o debate. Ela ressalta como essas metodologias podem combinar-se com o uso das tecnologias. “Exemplo disso é a cultura maker, do fazer, que utiliza a metodologia ativa para construir diante de um problema real. Além disso, ela pode trazer uma noção de pertencimento para os jovens, que realmente assumem a postura de centro da aprendizagem. O professor entra como parceiro e um mediador desse processo.”


Aprendizado em meio à pandemia

Também é importante não confundir aulas mediadas pela tecnologia com a adoção de metodologias ativas. “Passamos pelo desafio de transformar as aulas para o formato digital de forma compulsória, mas nem sempre o uso de tecnologias digitais garante que o ensino será criativo e inovador. Apenas entender a migração ao digital como uma transmissão de conteúdos pode levar a um retrocesso. É preciso propor maneiras para que os estudantes saiam da postura passiva em frente à tela e criem seus processos de aprendizagem”, orienta Lilian Bacich. 

A especialista defende que as escolas que conseguirem dar um passo a mais em relação às tecnologias ativas vão ter ganho. “Todos tiveram que ir para o digital de alguma maneira, mas algumas instituições estão fazendo isso de um jeito mais ativo, não só colocando o aluno de frente para uma tela, mas dando oportunidade para que ele produza algo, conectado à tela ou longe dela”, completa. 

Débora lembra que os diversos formatos de metodologias ativas também podem ser adaptados para o meio digital. “Na aula a distância, perdemos o contato olho no olho, mas podemos criar uma sala de aula invertida para ter o retorno dos estudantes e otimizar o tempo, por exemplo. Esse formato possibilita personalizar o ensino, orientar os alunos a serem autorais e ajuda o professor a desenvolver um trabalho mais dinâmico, propor reflexões, aguçar a inventividade. Na Secretaria de Educação, vemos professores com certo receio de trabalhar assim, mas também vemos outros se arriscando e falando que essa é a melhor maneira”.


Perguntas dos internautas

Se um professor não domina essas tecnologias, por onde ele deve começar?
Lilian: Trabalhar com inovação pode parecer um desafio distante para muitos professores. Mas esse processo seguirá uma curva de aprendizagem, que começa com a exposição do docente às experiências com tecnologias. Se você é professor, tente pôr a mão na massa. Há uma série de tutoriais no site do prêmio RPA que podem ajudar (veja dicas ao final desta reportagem). Na primeira exposição a um novo recurso, a tendência é de utilizá-lo para substituir um outro, trocar o vídeo pelo podcast, por exemplo. Depois desse momento, o professor começa a fazer mudanças, até a hora em que consegue fazer adaptações mais elaboradas e até inovar, juntar recursos diferentes... E a aprendizagem seguirá segundo as necessidades de cada professor. Talvez ele não precise de robótica, mas pode usar STEAM para solucionar problemas. Aliando a fluência dos estudantes no meio digital aos conhecimentos formais dos professores, eles podem chegar a um uso inovador dos recursos na educação.

É importante haver formações continuadas para o professor com a abordagem STEM?
Lilian: Sim, é importante o professor experimentar essa abordagem no papel de aluno. Possibilitar que o professor coloque a mão na massa pode gerar bons resultados. E vemos o quanto os professores gostam de participar dessas formações. Não adianta só dizer o que os professores devem fazer. Organizamos a formação passando por todas as etapas até o professor desenvolver os protótipos e, depois disso, como fazer seu plano de aula com essa abordagem. Ele fica mais tranquilo porque já vivenciou o que é o STEM na vida real.

O que o professor deve considerar ao adotar as metodologias ativas?
Débora: Deve considerar o contexto em que o território está envolvido. Conhecer de fato sua realidade e depois buscar casar essa questão com o currículo: onde ali tem potencial pra usar metodologias ativas? E qual modelo pode ser explorado nesse contexto? Sem esquecer dos estudantes, de ouvir o que eles buscam. Assim, ele pode trazer um pouco de pertencimento e autoria para o trabalho. O professor não vai mais trazer as respostas prontas, mas vai aguçar a curiosidade e o interesse dos estudantes na construção disso. 

Qual a diferença entre aprendizagem por projetos e iniciação científica?
Lilian: Há similaridades e diferenças. No trabalho por projetos, há um problema real ou próximo do real a ser respondido. Há uma questão que mobiliza a busca de conhecimento e leva à construção de um protótipo para responder essa questão. Esse não é necessariamente o caminho da iniciação científica, que às vezes é um estudo de caso, às vezes um estudo bibliográfico, ou de investigação em diferentes formatos. Podemos fazer um projeto de iniciação pensando na aprendizagem por projetos, mas não é assim necessariamente. (Ao lado: desenvolvimento de biofilme a partir da Psidium guajava para aplicações diversas, projeto vencedor na 6a edição do Respostas para o Amanhã.)

Como vencer a apatia dos alunos e engajá-los neste momento de pandemia?
Débora: Não há uma receita pronta, mas há formas para aguçar o interesse dos estudantes: é importante escutá-los, deixar que tragam suas questões, que falem sobre os temas. Este é um momento emergencial e manter o diálogo e o acolhimento é fundamental. Para eles também é difícil ter aulas a distância sem poder trocar com seus colegas.  Também é possível propor atividades que promovam a interação virtual entre os estudantes. 


O que você quer fazer pelo futuro hoje, @?

Com esse tema, o 3º webinar do prêmio Respostas Para o Amanhã será realizado dia 24/7, das 15h às 16h, e terá transmissão também pelo canal do Youtube e Facebook. Participarão do bate-papo jovens ganhadores de outras edições do prêmio e que hoje seguem carreira nas áreas de ciência e tecnologia. Ative a notificação e participe!

Já inscreveu as ideias de seus estudantes para um amanhã mais sustentável?

Falta um mês para o final das inscrições para o Prêmio Respostas para o Amanhã. Em sua 7ª edição, o programa busca incentivar os alunos a observarem seu entorno, os problemas locais e globais, e a pensarem em como transformar sua realidade por meio de projetos que envolvem Ciências da Natureza e da Matemática e suas Tecnologias. Podem participar professores das disciplinas relacionadas a essas áreas do conhecimento que lecionem no Ensino Médio em escolas públicas de todo o Brasil. 

Os participantes contam com todo apoio para o desenvolvimento de seus projetos, por meio de mentorias, oficinas e workshops sobre trabalho por projetos, metodologias ativas e abordagem STEM (do inglês, Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática). Confira as novidades de premiação: agora os 100 primeiros projetos aptos às regras serão premiados com 1 Kit Arduino Samsung para o Professor Orientador desenvolver projetos de robótica com os estudantes!  Além disso, as equipes participantes concorrem a diversos prêmios, como smartphones, tablets, notebooks, smart TVs e  smartwatchs. 

A inscrição pode ser feita  pelo site ou pelo aplicativo gratuito desenvolvido pela Samsung, que dá acesso a informações sobre o programa e a materiais exclusivos sobre abordagem STEM. Dicas importantes para a inscrição das propostas de cada equipe podem ser acessadas neste vídeo tutorial

Anote a data: as inscrições vão até 10 de agosto. Outras informações e o cronograma atualizado da premiação estão disponíveis no site. Participe: estudantes, professorese escolas: todos têm a ganhar.


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TAGS: Currículo Valorização Docente Prêmio Projetos científicos Ensino Médio Base Nacional Comum Curricular

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